Brasinca 4200GT ou Uirapuru? Eis a questão

Publicado: 27/11/2016

Quando desejamos falar sobre um dos maiores icones de carros esportivos fabricados em pequena escala no Brasil mostrado pela primeira vez no salão do automóvel de 1964, ou ficamos em dúvida no nome ou falamos sem saber ao certo seu nome correto, ou seja, Brasinca 4200GT ou Uirapuru? Ou ainda qualquer um dos dois? Qual seu palpite?


Para começar a entender este dilema é necessário muita pesquisa, e infelizmente muita informação não foi documentada por isso a exatidão se torna impossível depois de 50 anos de sua fabricação. As fontes são de amigos jornalistas e antigomobilistas, pesquisas na internet ao longo de muitos anos e mesmo sendo eu um ex-funcionário da Brasinca pouco pude saber sobre este assunto dentro da empresa, a não ser o Brasinca 4200GT ano 65 chassi  1009 que em meados dos anos 80 foi adquirido pela Brasinca e sofreu uma pequena restauração na própria Brasinca na área de protótipo e ficou na empresa até o final dos anos 90.

De início agradeço imensamente meu querido amigo antigomobilista e jornalista Tiago Songa, um incansável pesquisador sobre os veículos Brasinca 4200GT e Uirapuru e que ao longo de nossa amizade tem uma inestimável contribuição nas informações descritas abaixo. Muitíssimo obrigado querido amigo!

Uma coisa é certa, esse carro foi concretizado porque duas pessoas um dia se cruzaram, uma delas chamado Sady Schueler Moura, empresário, fundador da Brasinca e outra pessoa chamado Rigoberto Soler, engenheiro, especialista em mecanica veicular que trabalhou em várias montadoras na Europa e estava trabalhando em montadoras no Brasil na dêcada de 60.

Dois idealistas que foram construindo suas vidas profissionais e em um dado momento se juntaram e iniciaram um projeto ousado para a época em um país que estava praticamente iniciando a indústria automobilistica no Brasil.

Sady Schueler Moura iniciou a empresa INCA – Industria Nacional de Carrocerias de Aço em 21/10/1949, esta empresa era voltada para algo inédito no Brasil, fabricação de carrocerias de aço para ônibus que até então as carrocerias de ônibus eram de madeira.

Logo uma empresa reclamou do nome por se dizer dona deste nome, então a recem INCA juntou a seu nome a inicial BRAS mudando seu nome para Brasinca.

A Brasinca iniciou suas atividades em 2 galpões na Avenida Um, no Bairro da Moóca, que posteriormente foi rebatizada de Avenida Henry Ford.

 

foto registrando a entrega do primeiro ônibus com carroceria fabricada pela Inca

 

Outro modelo de ônibus com carroceria agora já com o nome Brasinca

Depois de um tempo fabricando carrocerias de aço para ônibus a Brasinca teve problemas porque a importação de chassis começaram a ter dificuldade de entrada no Brasil, então a Brasinca iniciou outro ramo inédito no Brasil, fabricação de trailers para empresas que necessitavam deste produto para que seus funcionários acompanhassem obras em poços de petróleo.

Após isso a Brasinca foi adquirindo know how e iniciou prestação de serviços a montadoras e por fim ofereceu a FNM uma extensão da cabine do caminhão FNM para transformar seu caminhão em cabine leito. A FNM aceitou de pronto a proposta e então a Brasinca passa a fornecer a cabine leito para o caminhão FNM. Ano de 1954

 

Com isso a Brasinca vai trilhando seu caminho como fornecedora de produtos e participando de projetos para as montadoras.

Paralelo a isso Rigoberto Soler vai trilhando seu caminho nas principais montadoras no Brasil, de descendência espanhola, inicia trabalhando no Brasil na Vemag e posteriormente na Willys trabalhando em um projeto chamado Capeta que era um veículo esportivo de dimensões maiores que um Interlagos e motorização 6 cilindros 2600cc do Aero Willys. Este protótipo foi mostrado pela Willys no salão de 1964. Foi feito apenas este protótipo e felizmente este sobreviveu e hoje faz parte do acervo do museu de Brasília onde o curador é o jornalista Roberto Nasser.

 

Após a Willys Rigoberto Soler ingressou como chefe do departamento de Engenharia de Produtos da Brasinca e com isso aconteceu o encontro que faria nascer o Brasinca 4200GT ou Uirapuru.

Uma curiosidade é que o Brasinca 4200GT ou Uirapuru possui dimensões similares ao Willys Capeta.

 

 


O projeto veio a se chamar Uirapuru, mas quando o carro foi lançado oficialmente no salão do automóvel de 1964 o nome oficial foi Brasinca 4200GT porque a Brasinca desejava mostrar seu know how em conseguir projetar e produzir um carro totalmente nacional.

 


Este carro tinha faróis redondos, emblemas no capô e tampa traseira com o logo B de Brasinca, no pára-lama dianteiro o emblema BRASINCA e na coluna C o emblema 4200GT além das calotas com o emblema B de Brasinca.

 

Caracteristicas principais Brasinca 4200GT 1964


Até então o único carro esportivo nacional era o interlagos, carro de fibra de vidro com mecanica do Gordini com cilindrada um pouco maior.

Já o Brasinca 4200Gt tinha carroceria toda de chapa de aço. motor 6 cilindros da perua GM Amazonas 4271Cm3 entregando 155CV e 3 carburadores SU H4. Esportivo denominado “puro sangue”

A Brasinca inciou sua produção em Março de 1965 com o nome de Brasinca 4200GT

Até o mês de Maio de 1966 a Brasinca havia vendido 23 carros e tinha 12 carros prontos no pátio aguardando futuros compradores.

Neste momento a Brasinca perde o interesse de continuar a fabricação do Brasinca 4200GT pela pequena escala de fabricação. Neste momento é criada a empresa STV (Sociedade Tecnica de veículos) e os sócios são o Rigoberto Soler, Walter Hahn Jr. e Pedro dos Reis Andrade e eles compram o direito de fabricação e venda do Brasinca 4200GT.

A STV é instalada em um prédio na Rua Minas da Prata 215, Bairro Itaim Bibi, São Paulo.

 

A STV recebe os 12 carros Brasinca 4200GT que estavam no pátio, recebe carros inacados, peças de carros para serem montados e todo estoque de peças referentes ao Brasinca 4200GT.

Neste momento a STV muda o nome do carro de Brasinca 4200GT para o nome inicial do projeto que era Uirapuru. Assim o emblema do capô dianteiro e tampa traseira sai o emblema com B e entra o STV, o emblema do pára-lama sai o BRASINCA e entra o UIRAPURU, na coluna C sai o 4200GT e entra o 4200S e na calota sai o B e não entra nada no lugar.

Os faróis continuam redondos como no Brasinca 4200GT.

 

 

Caracteristicas principais Uirapuru - STV 1966

 

Uma evidencia para isso que serve de exemplo nos dias de hoje é um Uirapuru chassi próximo da metade entre o número 1030 e 1040 e que se encontra  nesta configuração e está todo original, mas há uma ressalva que os Brasinca 4200GT vendidos pela Brasinca e posteriormente os Uirapurus não foram vendidos seguindo uma ordem do número do chassi, ou seja, foram sendo montados carros de cores diferentes e quando um comprador chegava para adquirir um carro ele era escolhido pela côr e não por sequencia de número de chassi e montagem.

Por exemplo pode ter sido escolhido um veículo Branco com um chassi com número maior (produzido depois) antes de um veículo Preto com um chassi com número menor (produzido antes) dai uma dificuldade maior ainda em saber qual foi vendido pela Brasinca e qual foi vendido pela STV.

Outra dificuldade foi o fato de que quando a STV assumiu a fabricação dos veículos ela recebeu veículos prontos no pátio que eram oficialmente Brasinca 4200GT e estes com certeza foram vendidos pela STV, além de peças de acabamento como vidros gravados com nome Brasinca e outras peças de acabamento que provavelmente foram montados em Uirapurus e vendidos posteriormente pela STV. Dai também carros misturados peças de acabamento Brasinca e STV.

A STV também criou uma equipe de competição correndo com Uirapuru e chegou a ser campeã em 1966 na categoria Esporte, GT e Protótipos por seu sócio e piloto Walter Hahn Jr, mas isso também não alavancou a marca.

 

 

Passado esta fase de início da produção do Uirapuru pela STV em outubro de 1966 a STV apresenta o Uirapuru no salão do automóvel com novidades.  A STV leva dois Uirapurus conversíveis com faróis retangulares, 1 Uirapuru com farol redondo e pisca dianteiro redondo (nunca visto em nenhum outro carro) e também uma perua chamada RR-1 ou Gavião pintada nas cores da polícia rodoviária que posteriormente foi cedida para a polícia rodoviária do Estado de São Paulo como comodato e ficou sendo um protótipo único.

 

Uirapuru Berlineta ao fundo e Uirapuru conversível no plano da frente

 

Uirapuru conversivel

 

Uirapuru conversível

 

O curioso Uirapuru Berlineta com pisca redondo que nunca foi visto em nenhum outro carro senão nesta foto.

 

 

foto da viatura RR-1 Gavião no salão do automóvel de 1966

 

foto da viatura em serviço

 

foto da viatura RR-1 sendo usada no filme Águias de Fogo com o vigilante rodoviário Carlos Miranda ano 67 e 68.

Segue o link do filme que aparece a viatura: https://www.youtube.com/watch?v=Sr0xOy-hkNE

A STV encerrou a produção do Uirapuru em Julho de 1967 e o número que é conhecido é aproximadamente 76 unidades fabricadas  considerando Brasinca 4200GT, Uirapuru, dois Uirapuru conversível e uma perua RR-1 (Gavião).

Entre todos os carros fabricados pela STV apenas os dois carros conversíveis foram fabricados com faróis retangulares, todos os demais foram fabricados com faróis redondos.

Após o término da atividade da STV,  um ex-funcionário da STV chamado Roberto Camarota montou uma oficina chamada TECAU - Tecnica em Automóveis, no bairro do Ipiranga - SP visando a manutenção de Brasinca 4200GT e Uirapurus. Camarota também adquiriu peças de estoque da STV e neste lote de peças recebeu faróis retangulares identicos aos que foram montados nos Uirapurus conversíveis do salão do automóvel de 1966.

Quando os Brasinca 4200GT e Uirapuru eram levados para manutenção na oficina do Roberto Camarota era oferecido o serviço de substituição dos faróis redondos para retangulares. Este é o motivo de hoje vermos nos encontros de carros antigos e imagens na internet  carros com faróis retangulares e ficamos em dúvida se são Brasinca 4200GT ou Uirapuru e se em algum momento foi colocado farol retangular em Uirapurus.

A dica para verificar se um carro é um Brasinca 4200GT ou Uirapuru é verificar os emblemas, o ano e se possível o número do chassi. O carro possui emblemas Brasinca ou STV? O emblema no pára-lama está escrito Brasinca ou Uirapuru? Se o carro for ano 65 ou até a metade de 66 é Brasinca, se for depois da metade de 66 ou 67 então é Uirapuru, mas lembrando que a metade de 66 é extremamente complicado porque a STV recebeu nesta época carros da Brasinca prontos, carros inacabados e peças para montar mais carros e então dali em diante acredito que foram montando conforme o estoque, e também carros do estoque podem ter sido trocados placas de identificação de Brasinca para STV e o emblema do Pára-lama de Brasinca para Uirapuru, então de Maio de 1966 para frente fica complicado saber.

  

 Brasinca 4200GT, emblema Brasinca e farol retangular adaptado possivelmente pela oficina do Roberto Camarota

 

Este acaba sendo um pouco mais difícil, talvez faz parte do início da STV porque o emblema do pára-lama é Uirapuru e os demais são emblemas Brasinca e o farol retangular foi adaptado possivelmente pela oficina do Roberto Camarota também.

 

No final das contas nunca conseguiremos saber ao certo o número exato dos carros legítimos Brasinca 4200GT fabricados pela Brasinca e o número de Uirapurus montados pela STV. Muitos são os fatos que limitam esta exatidão e um deles é  a substituição de plaquetas de identificação pela STV e emblemas Brasinca do pára-lama que foram substituidos por Uirapuru também pela STV, sem contar ainda os faróis redondos substituídos por faróis retangulares na oficina do Roberto Camarota.

 Tudo isso é fato secundário se considerarmos que um carro foi projetado por um visionário que se juntou a um empresário também visionário e deu vida a um carro magnífico, depois ainda quando a Brasinca perdeu interesse pelo carro Rigoberto Soler conseguiu dois sócios e colocou o carro adiante pela STV e aumentou sua produção em mais dois terços.

Abrindo um parenteses não podemos esquecer que Rigoberto Soler ainda deu mais um suspiro neste tipo de carro ainda como professor do Centro Universitário FEI em São Bernardo do Campo com um carro conceito que tinha as mesmas dimensões do Uirapuru e mais precisamente na proposta do RR-1 (Gavião) que é o FEI X-3 ou Lavínia que a FEI ainda o guarda em seu acervo na faculdade.

O Lavínia foi apresentado no salão do automóvel de 1970 fazendo um grande sucesso.

 

 

Rigoberto Soler faleceu em 2004 e deixou um grande legado tanto na industria automobilística Brasileira quanto na área acadêmica.

Uma questão é inegável, seja Brasinca 4200GT ou Uirapuru, o carro marcou não só sua geração, mas tem marcado uma nova geração como a minha, que mesmo se passando 52 anos desde seu lançamento no salão de 1964 ainda desperta admiração entre os antigomobilistas e admiradores da industria automobilística no Brasil. Talvez por suas linhas arrojadas para a época, ser o primeiro carro nacional puro sangue, poucas unidades produzidas e talvez um terço delas ainda sobreviventes  ainda que deste um terço muita delas ainda aguardando restauração.

Por fim quanto mais pesquiso chego a uma conclusão: é perca de tempo pensar em separar Brasinca 4200GT até Maio de 1966 e STV Uirapuru a partir de Maio de 1966 já que o projetista é o mesmo e o projeto inicial se chamava Uirapuru. A Brasinca provavelmente fez todas as carrocerias e repassou todas para a STV, a Brasinca repassou carros prontos, carros inacabados e peças. Carros fabricados antes da STV podem ter sido trocados a plaqueta de identificação de Brasinca para STV e trocado o emblema no pára-lama de Brasinca para Uirapuru, então por fim acho mesmo que as pessoas estão certas: o carro é definitivamente o Brasinca 4200GT Uirapuru e ponto final!

Um forte abraço e até o próximo post com a história de algum outro carro antigo.

Edson Stanquini

Projetista do Produto trabalhando a 32 anos em montadora - ex funcionário da Brasinca - gosta muito de antigomobilismo, da história da indústria automobilística no Brasil e do mundo retrô. Também possui uma empresa chamada 14 Bis Estampas canecas personalizadas onde faz personalização em canecas, quadros, azulejos, placas de metal, camisetas e outros produtos personalizados onde o carro chefe são estampas de carros antigos.  Expõe seus produtos nos principais encontros de carros antigos no ABC Paulista, São Paulo e interior de SP.

visite o nosso site:

www.14bisestampas.com.br

curta nossa página no facebook:

www.facebook.com/14bisestampas

 

 

 

 Linha do Tempo Brasinca 4200GT e Uirapuru

 

 

 

CURIOSIDADES

Algumas particularidades entre Brasinca 4200GT e outros carros da época

 

 




 

 

 

 

 


 Viatura STV Uirapuru RR-1 - Gavião

modelo 3D criado pela 14 Bis Estampas em CAD

 

 

Linha de canecas 14 Bis Estampas Brasinca e STV Uirapuru

 

 

Banner do salão do automóvel de 1964

 

Banner do salão do automóvel de 1964

 

 

STV Uirapuru RR-1 (Gavião) - exclusividade 14 Bis Estampas

 

STV Uirapuru RR-1 (Gavião) - exclusividade 14 Bis Estampas

 


Caneca Logo Brasinca 4200GT

 

Caneca Logo Brasinca 4200GT e STV Uirapuru

 


Caneca de Chopp de vidro fosco 550ml

 

Caneca de chopp de vidro transparente 600ml

Voltar